Tuesday, August 26, 2008

Menina

Se volto aqui, com as palavras, é porque já não vi outra saída.
Pobre coração de uma garota de 23 anos. Amargo gosto da decepção. Contigo, comigo com todos os pronomes possíveis de classificação.
Sabe, se volto aqui, acho porque vale a pena registrar sentimentos tão agoniados. Não sou poeta e nem mesmo vou me tentar fazer. Mas é que desconfio de pessoas que utilizam as palavras “coisa” e “negócio” para definir algo. Prefiro descobrir palavras.
Tentar fugir da noção de que esta menina, em seu cego sentimento, não deixa as qualidades serem outras.
Pobre garota de 23 anos, há tempos em uma agonia de amor tão boa, tão ruim, tão incógnita. Desta garota, tira-se a experiência. Do coração, a carência de menina, esperando seu menino dizer que, na verdade, tudo está bem. Que a mentira nunca existiu.
Do tempo, novas possibilidades. A distância. Da vida, o consolo de novamente ser menina.

E o alívio de ter 23 anos.

Sunday, August 26, 2007


13 e 23

Tem dias que tenho 13 e 23. Acordo oito horas da manhã no domingo para fazer algo que não beneficie só minha vida, meu humor, minha vontade. 23. Pinto e deixo colorido, com “– pode pôr brilho, tia?” as bochechas, os braços, todo o rosto, estrelas pelo corpo. 13. Fazemos campeonato de quem bamboleia na cintura por mais tempo. Embalo bambolê. 13 de novo, que bom.
Ah ah, e corro na prancha mais depressa que os meninos. Vamos até o final da rua e fazemos a volta. 13! Tenho cartão de empresa, hora-ponto, e toda a agenda ocupada na segunda. 23.
Seguro um cartão de xilogravura feito com folhas secas por um senhor de bigode. Vejo a senhora convencer um grupo a parar de fumar e comer melhor, pelo bem de suas saúdes. Sinto imenso orgulho de meu pai e minha mãe, 13 e 23.
Sou chamada de tia! 23. Emburro e bato o pé. 13...
Sinto pressão, me concentro. Alongo, presto atenção. 23. O ritmo desanda e continuar se separa – por uma sensível linha – de voltar ao silêncio. 23. Buscar uma solução. 23, 23, 23!
A batida vem como se envolvesse uma criança com medo. Faz o pulso de sangue quente prestar atenção na essência. E não na fórmula. Percebo ao lado uma saia balançando com o tambor e braços que desenham coreografias de Maracatu. Volto aos 13, obrigado senhor! Sorrio para o céu.
Presenças e gestos invadem a despreocupação infantil e fazem lembrar um passado mais remoto, não tão feito de brincadeiras na rua e brigas por ciúmes bobos de amizade. Estar se torna mais difícil. 23. Mas logo recebo um beijo carinhoso na mão, um sorriso surpresa e também um abraço desengonçado. 13. Não estou sozinha.
Ando pela rua entre uma menina loira que tem laços coloridos no cabelo e tira a melhor nota na escola. Do lado direito, a outra loira de cabelo corte cogumelo, camiseta da “minnie” que veste um corpo esmilinguido. Ah, bailarina, e brava já.
Mas tenho 23... cartão de empresa e horário pra acordar amanhã. Volto com elas como voltava da escola. Será que dá para passar no armarinho da esquina e comer uma teta de moça antes do almoço?

Thursday, August 23, 2007

Crônica, atrasada. Teste de volatilidade do gênero:

Penso, logo...

Crônica a prazo sempre dá trabalho. “Penso, penso, logo existo”. Penso no FILO que já vai acabar. Dezoito dias de arte e cultura, entre teatro de objetos, dança e shows musicais. Um dia para se encantar com os palhaços de Alagoas, o outro para repensar a dualidade vida x morte a partir do atropelamento de um pequeno cachorro doméstico e ainda mais um dia para se comover com a história de um homem que possui uma flor na boca. E, como tudo na arte não é apenas um significado, ter uma destas na boca é possuir a mais traiçoeira flor da vida e da morte, um câncer lento que se instala na alma de um personagem transtornado. Para ele, não há “o que irei fazer amanhã?”. Mas pense, também não há perturbações futuras para entregar crônicas a prazo.
Penso no caso Calheiros e Xeque-Mate e imagino como deve ser o sistema de corrupção por trás da aparente democracia. Como estudante, ainda me obrigam a ouvir: “quando freqüentava a faculdade, também pensava em mudar o sistema”. Marx pensou, Lênin pensou. Hitler e Stalin também pensaram. Assim como pensam estes senhores engravatados que exibem uma feição de “faço sim, mas convenço que não fiz”.
Demorei a ter interesse em “sanguessugas”, “mensalão”, operações aqui e acolá. E agora que aprendi a acompanhar estes processos, percebo que a incompreensão existe caso se leia jornal ou não. Mesmo os investigadores sobem e descem ladeiras de documentos e declarações cruzadas. A hipocrisia é uma característica engraçada, nunca sabemos se nós quem somos muitos desconfiados ou se ela é quem é muito cara de pau e julga nossa inteligência.
Nesta incessável busca de temas para crônica a prazo, penso em explicar como funciona a aleatoriedade rápida dos pensamentos de um cronista. Por exemplo, esperando o ônibus com mais vinte pessoas no ponto do Campus, sinto no rosto de cada um que estar ali parado, esperando o transporte, causa certa impotência em relação ao tempo. Contando os minutos, que já foram quarenta, percebo que quinze pessoas começam a se movimentar para outro ponto e ouço rumores de que a paralisação dos professores fechou a entrada e esperávamos a toa no ponto do restaurante. Professores impacientes discutem a questão salarial e a qualidade de ensino na universidade. E nós fomos atingidos, tanto na educação quanto na espera do ônibus. Agora, a missão na vida de vinte pessoas era procurar o ponto que não estava obstruído pelo, novamente, caos do sistema.
Quando chega o parágrafo final espera-se que ao menos o cronista interligue os diferentes assuntos que expôs em menos de uma página. E o próprio escritor descobre a ligação apenas na última frase. Aqui estou, no ponto, esperando um ônibus que foi bloqueado pelas conseqüências de um sistema desorganizado e corrupto, o que irá me render um atraso na última peça, “Em busca de suas criaturas”, comprada para o FILO que, lembrem-se, já vai acabar em alguns dias. Tudo na vida tem ligação, meus caros.

Friday, August 10, 2007

Bellatriz

“Ai que delicia.... como você ta zen... quer dizer que aquele velho plano de documentar os tesouros do mundo do mel rolou mesmo? e essa foto da tua casa hein... aquece até as paredes do meu coração. Sinto tantas saudades suas e da sua habilidade em embelezar o mundo...
Ma...
voltei pro orkut pra resgatar as amizades que deixaram saudades
ando com medo de perder tudo isso...
agora que acabo de me tornar.... uma mamãe bebê...
queria dividir com todas que eu amo... de pertinho.... como não dá.... um salve aos vínculos digitais...
adorei a forma como você retrata seu espírito nestas páginas.... espero que seja real... e não apenas mais uma jogada publicitária das mulheres presas aos centros das grandes cidades... hummm... fiquei poeta... meio idiota.... agora agüenta tua amiga sensível...
louca pra TE encontrar... beijos e SORTE*”

É assim que estou vendo minha vida passar. Recebo novidades do ciclo natural da existência dela com quem já tive momentos que teceram os pensamentos atuais; conceitos que insisto em expressar ao mundo, por enquanto, virtual. Não entendo porquê essa vontade, é verdade; nada mais que “uma cronista solitária com ânsia de expressar-se”.
E contar ao mundo como as minhas personagens são especiais. Essa da novidade tem franjas caídas aos olhos, nariz batatinha e andar de menina-independência procurando o companheiro. Conheci-a por intermédio de outra personagem, também diferente de uma vida vulgar; vive à beira-mar, tem os olhos puxados em uma cor dourada, não pára quietos os olhares e as palavras e, como esta do recado acima escreveu para ela, também para contar a novidade, “tenho saudade das suas 973 palavras por minuto, das nossas brigas e do seu sotaque do sul e do seu corpão de praia...”

Um tempo sem notícias tuas, da agora mamãe-bebê e da atual garota-surf. Como me descreveu mesmo? Menina-zen? Trabalho e desenvolvo em mim a história que me passou nos olhos e ouvidos para o futuro que já já vem. No presente, agora que recebi este recado, ergui o rosto à parede branca, como se olhasse os deuses: - Obrigado por quem colocou e coloca em meu caminho! Estão se tornando mamães-bebês, e sei que continuarão assim mesmo aos quarenta anos.

E espero que seja real também... estas histórias e novidades que vejo a vida tecer com minhas personagens, longe ou perto de mim. Empalideço um pouco ao lembrar que a maioria seja, ainda, de longe. Pois não é possível estar sempre perto de quem nos construiu, eu sei.

Fico feliz em vê-la protagonizar o enredo que ainda aguardo com ansiedade para as minhas páginas. E neste momento, comecei a listar os olhares, toques e palavras que ainda vivenciarei para chegar ao momento mamãe-bebê. Aguardo com pulinhos de criança levada, mesmo sabendo que outros capítulos ainda serão escritos para sempre conduzir a um novo começo.

Senti-me aliviada. Respirei fundo, fui lavar o corpo para a roda de samba e confessei ao mundo: É tudo verdade!

Saturday, August 04, 2007

Sete pecados

“o que me mata são os atos impulsivos. apesar de observar demais, pensar muito... num instante de loucura tudo se perde.”

Disse, disse, disse. Desatropelou palavras que há algum tempo estavam caladas em um corpo inerte. Já começava a conformar-se que era conformada.
Como era fácil dizer naquele momento!
Dizia com gestos e grunidos o que os verbos não conseguiam interpretar com tanta objetividade.

Dizia com a intenção apenas de dizer, não precisava obter respostas, nem mesmo palavras de conforto. Disse para liberar o engarrafamento de idéias pesadas que carregou por semanas de assimilação.

“Doce borboleta, a feiúra é uma forma de morte. Alegre-se, pois é bonita, está viva!”. Não se engane, ela dizia sim em contexto igual: “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Mas não interpretem dessa forma, leiam novamente. Mesmo assim, deixarei uma brecha de resposta no fim do texto, como em apostilas do primário que serviam para confirmar as respostas escritas no exercício. Quem nunca olhou o final antes de responder no começo?

Pecados são sentimentos. Que, torço por você, raras vezes chegam à ação. Naquele dia, a tarefa era interpretar os sete pecados capitais pela batida de caixas, alfaias, ganzás e chequerês. O professor confundiu-se, “escolham o seu sentimento”. Todos corrigiram.

Porquê?

Vaidade é sentir. “Descobrir que é você próprio quem mais se observa no mundo”. As pessoas caminham para seus destinos e, provavelmente, estão ocupadas demais observando a si próprias. Você sente. Sente o calor de caminhar entre a multidão e sente a falsa idéia de que o vento sopra mais forte para balançar os teus cabelos. Que as folhas da árvore caem apenas para enfeitar o seu caminho.
Gula é sentir. É ter a fome corroendo dentro do estômago. É ter o prazer do açúcar, a saciedade do sal. Sentir o gosto forte da pimenta e logo após a suavidade do jambo.
Inveja é sentir. É ter vontade de ter do outro o que não lhe pertence. Possuir algo que não encaixa em sua vida nem em suas ações de conquistas.
Avareza e Ira também fazem sentir. Sentir dentro de si um medo de não segurar pensamentos violentos e frios.
A preguiça faz sentir. No corpo, a moleza do dia mais quente do verão. Fraquezas sem esforço. Palavra que substitui, na verdade, a melancolia, o conformismo.
Por fim, a luxúria. Posso enganar-me na descrição, mas esta é a única que não vem exclusivamente do sentimento. Vem do capital. O dinheiro, a posse, o domínio da exclusividade. Ter o que ninguém mais pode ter.

Vejam só, não costumo mencionar a igreja em argumentos. Mas trago ela aqui pois, como sempre, discordo e concordo de seus dizeres. O pontifício ordenou quais pecados ofendiam mais o amor: a luxúria está em último lugar.
Simples. Quem ama, possui; tem o objeto de amor para si próprio. Controla. Há os que amam e, por isso, o próximo não pode se aproximar. Isso evita confusões mentais, dúvidas e atitudes que “o que me mata são os atos impulsivos. apesar de observar demais, pensar muito... num instante de loucura tudo se perde.” A lúxuria não permite perder. O pecado menos prejudicial ao amor. Controla e estabiliza.
Agora, o pecado mais prejudicial: orgulho (leia-se vaidade). “Ser o único a observar-se tanto no mundo”. Tanto que não é possível observar o amor, cuidar do próximo.

Faça o teste que fiz. Fique sozinho com um caderno de anotações e comece a descrever cada sentimento dos sete pecados capitais. É um desafio. Pois descrever também é sentir. É vivenciar cada inquietação do pecado. Cada linha preenchida será resultado de um espírito vivendo, a cada minuto, um pecado capital. Mas sem chegar à ação, deixo claro.
Faça o teste. Aceito os resultados por e-mail, marina_jnl@hotmail.com, para quem quiser compartilhar os sentimentos descobertos. Serei humilde em reconhecer uma descrição mais fiel. E não se preocupe se perceber que se sentiu bem em algum dos sete. É natural do homem. Todos têm a sua fraqueza. O forte é descobri-la.

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Resposta do quarto parágrafo: o sol, o verde-ametista do rochedo escondido na pedreira, o sorriso, o “obrigado”, o pôr-do-sol, a amizade, a música instrumental, o samba, a trilha, a estrada... o que lhes é belo.

Tuesday, July 31, 2007

Rotatividade

O manual para jornalismo virtual diz que palavras complexas e compridas devem ser evitadas. Não existe mais a descrição. Proibiram-me de escrever a vida com palavras difíceis. Tudo bem, experiências pessoais, me sinto mais à vontade convivendo com a simplicidade. Mas proibiram também palavras compridas. É quando me desespero.

A vida já não é mais surpreendente, não lhe traz impulsividades ou outras palavras que sejam compostas além de cinco letras. Não sou mais uma pessoa instigada e já não tenho por você, à minha frente, inspiração. Não choro mais por mesmices sentimentais e não dou risadas com ações desastradas.

Mas em últimos tempos de informações rápidas e notícias superficiais, palavras compridas não são o alvo de minhas preocupações. Agora, cenas começaram a inquietar algumas percepções. Imagino, vivencio e crio. Não gosto, mudo, logo retiro a árvore ou despeço-me das pessoas. Coloco um cachorro ao canto. Tudo muda. Menos a minha observação. Observo estática. Não interfiro na cena. Deixo ali, acontecer assim que coloco. E que aconteça a vontade de cada elemento de cena.

O motivo é que nunca gostei muito de inventar histórias, confesso. Tenho mania apenas de enfeitar o que já me fazem ou contam. Não são mentiras. São enfeites dramáticos, cômicos, vazios ou superficiais. Sou eu sentada, observando a rotatividade. Observo alguns que vem e me roubam um sorriso. Acompanho-os com a cabeça quando saem de cena (nela que não há muita dimensão). Mas não interfiro.

Porque a vida não é feita para se moldar, na verdade. Quanto menos grito e ordeno, mais ela me leva à direção inusitada. E todo observador da vida – e de vidas – tem um agente próprio que o atrai para cenários e dramatizações. O agente próprio é a amiga da cidade grande que consegue fazer com que histórias se acumulem e aconteçam de forma confusa. Histórias que só serão contadas quando tiver acumulado um saudosismo da juventude e uma maturidade para ordenar fatos que aconteceram atropelados. Narrativas não-lineares ingressaram (palavra complexa e comprida; ó céus, desobedeci ao manual de jornalismo virtual) na lista dos favoritos. Tanto viraram tendência que agora já nascem assim antes mesmo de serem relatadas.

Mas voltando ao agente próprio. Pode ser ele também o dia em que você resolve sair sozinho e conhece um viajante. Entre vinhos e conversas sobre o mundo, ele deixa sutilmente escapar os segredos da independência. E, com eles, características e gestos que alguns julgam loucura. Por isso descobri que tenho um kin, sou sol espectral amarelo, tenho como antípoda e, ao mesmo tempo objetivo, o cachorro branco, o amor incondicional. Descobri que contamos os dias errados e que há mais um planeta no universo que os Maias já conheciam, mas nós ainda não descobrimos. Ele irá se alinhar com a terra em 2012.

Por todas essas descobertas e rotatividades, quem sabe, daqui cinco anos você irá se lembrar desta coluna. Pois sei, não escondo e não tenho vergonha de admitir: nada disso parece ter sentido agora.

Saturday, July 14, 2007


Quinta emoção

Um filme lindo. Com pesada emoção sob rosto tão leve.

O take mostra dedos ansiosos que trocam as estações do rádio sem ao menos se importar com o que escuta.

Muito menos com o que escreve na cena. Na verdade, ela brinca com as sombras que a luz cria quando sua cabeça se movimenta para cá e para lá. A escrever. Uma linha começa iluminada, esperando letras e sílabas, frases e poesias. Traço que espera com devoção o momento para criar sentido, abandonar o vazio.

As palavras surgem e, junto, o escuro que ela própria cria com seus movimentos. Um balanço de nitidez e subliminaridade. Segredos escondidos por sombras. Seria este o melhor lugar para esconder um segredo?

O quadro volta ao painel do carro e à atenção dela ao perceber que no rádio ouvia ofertas de uma papelaria. LIBERAL PAPELARIA. O nome não encaixa em uma propaganda como aquela. Papel sulfite, 1 e 99. Porque hoje tudo custa 1 e 99. Menos aquele rosto.

A percepção de realidade traz de volta o cheiro de cerveja no carro. É a segunda vez que se lembra do que aconteceu. A aroma volta exalando um cheiro misto de cerveja com bom ar. A cena retorna momentos antes, quando o tapete encharcado já fora jogado na grama, enrolado e jogado para trás, criando um novo aroma de cerveja com terra. TAP. Na testa. Planos rápidos de segundos que mudaram a história.

Um filme lindo. Árvores em relevos negros. Poucas janelas iluminadas pelas casas de madeiras. E apenas a presença dela, ali, naquela confusão de pensamentos e movimentos desastrados.