Sete pecados
“o que me mata são os atos impulsivos. apesar de observar demais, pensar muito... num instante de loucura tudo se perde.”
Disse, disse, disse. Desatropelou palavras que há algum tempo estavam caladas em um corpo inerte. Já começava a conformar-se que era conformada.
Como era fácil dizer naquele momento!
Dizia com gestos e grunidos o que os verbos não conseguiam interpretar com tanta objetividade.
Dizia com a intenção apenas de dizer, não precisava obter respostas, nem mesmo palavras de conforto. Disse para liberar o engarrafamento de idéias pesadas que carregou por semanas de assimilação.
“Doce borboleta, a feiúra é uma forma de morte. Alegre-se, pois é bonita, está viva!”. Não se engane, ela dizia sim em contexto igual: “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Mas não interpretem dessa forma, leiam novamente. Mesmo assim, deixarei uma brecha de resposta no fim do texto, como em apostilas do primário que serviam para confirmar as respostas escritas no exercício. Quem nunca olhou o final antes de responder no começo?
Pecados são sentimentos. Que, torço por você, raras vezes chegam à ação. Naquele dia, a tarefa era interpretar os sete pecados capitais pela batida de caixas, alfaias, ganzás e chequerês. O professor confundiu-se, “escolham o seu sentimento”. Todos corrigiram.
Porquê?
Vaidade é sentir. “Descobrir que é você próprio quem mais se observa no mundo”. As pessoas caminham para seus destinos e, provavelmente, estão ocupadas demais observando a si próprias. Você sente. Sente o calor de caminhar entre a multidão e sente a falsa idéia de que o vento sopra mais forte para balançar os teus cabelos. Que as folhas da árvore caem apenas para enfeitar o seu caminho.
Gula é sentir. É ter a fome corroendo dentro do estômago. É ter o prazer do açúcar, a saciedade do sal. Sentir o gosto forte da pimenta e logo após a suavidade do jambo.
Inveja é sentir. É ter vontade de ter do outro o que não lhe pertence. Possuir algo que não encaixa em sua vida nem em suas ações de conquistas.
Avareza e Ira também fazem sentir. Sentir dentro de si um medo de não segurar pensamentos violentos e frios.
A preguiça faz sentir. No corpo, a moleza do dia mais quente do verão. Fraquezas sem esforço. Palavra que substitui, na verdade, a melancolia, o conformismo.
Por fim, a luxúria. Posso enganar-me na descrição, mas esta é a única que não vem exclusivamente do sentimento. Vem do capital. O dinheiro, a posse, o domínio da exclusividade. Ter o que ninguém mais pode ter.
Vejam só, não costumo mencionar a igreja em argumentos. Mas trago ela aqui pois, como sempre, discordo e concordo de seus dizeres. O pontifício ordenou quais pecados ofendiam mais o amor: a luxúria está em último lugar.
Simples. Quem ama, possui; tem o objeto de amor para si próprio. Controla. Há os que amam e, por isso, o próximo não pode se aproximar. Isso evita confusões mentais, dúvidas e atitudes que “o que me mata são os atos impulsivos. apesar de observar demais, pensar muito... num instante de loucura tudo se perde.” A lúxuria não permite perder. O pecado menos prejudicial ao amor. Controla e estabiliza.
Agora, o pecado mais prejudicial: orgulho (leia-se vaidade). “Ser o único a observar-se tanto no mundo”. Tanto que não é possível observar o amor, cuidar do próximo.
Faça o teste que fiz. Fique sozinho com um caderno de anotações e comece a descrever cada sentimento dos sete pecados capitais. É um desafio. Pois descrever também é sentir. É vivenciar cada inquietação do pecado. Cada linha preenchida será resultado de um espírito vivendo, a cada minuto, um pecado capital. Mas sem chegar à ação, deixo claro.
Faça o teste. Aceito os resultados por e-mail, marina_jnl@hotmail.com, para quem quiser compartilhar os sentimentos descobertos. Serei humilde em reconhecer uma descrição mais fiel. E não se preocupe se perceber que se sentiu bem em algum dos sete. É natural do homem. Todos têm a sua fraqueza. O forte é descobri-la.
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Resposta do quarto parágrafo: o sol, o verde-ametista do rochedo escondido na pedreira, o sorriso, o “obrigado”, o pôr-do-sol, a amizade, a música instrumental, o samba, a trilha, a estrada... o que lhes é belo.